REMINISCÊNCIAS
No início de janeiro de 2012 a família Falchetto relembrou solenemente os cento e vinte anos de chegada ao Brasil de seus ancestrais. Entre tantas homenagens, recordações e visões de futuro, algumas falas durante a sessão cultural e no decorrer da eucaristia me fizeram retroceder aos meus tempos de criança e de adolescente.
Os primórdios da saga dos Falchetto em terras brasileiras, no dizer dos oradores, foram marcados por três elementos que deram forma ao que é Venda Nova do Imigrante nos dias de hoje. Os desbravadores da região, que se embrenharam pelas matas das terrasadquiridas certamente não traziam riquezas, mas estavam repletos de esperança, tenacidade e fé.
A fé deu sentido à esperança e sustentou a tenacidade. “Merica, Merica, Merica” cantavam certos de que encontrariam aqui o decantado Eldorado e alcançariam fortuna. Para tanto foram ultrapassando todos os obstáculos: da falta de transporte à precariedade das vias de escoamento; das intempéries às doenças endêmicas; das feras aos ocupantes ilegais; da ignorância cultural à pobreza de recursos, etc. Tantos os desafios quantos os dias do ano!
A fé que alicerçou a esperança e a tenacidade não nasceu do nada: veio de navio com os pioneiros, formados nas boas famílias que sempre cultivaram os valores religiosos tanto na mãe pátria, quanto nas novas terras. Dadas as circunstâncias, o recurso a Deus era a única garantia de êxito, uma vez que o poder público, a pobreza generalizada e o meio ambiente hostil não contribuíam para imediato sucesso.
O esmero das festas, o recurso aos santos de devoção, os símbolos religiosos impregnavam os ambientes e os dias. Aos domingos a comunidade reunia-se duas vezes na igreja; pela manhã as crianças recebiam instrução religiosa através de catequistas idôneos, enquanto os adultos realizavam a celebração de Palavra,animada pelos mais ‘estudados’; à tarde, o canto das vésperas e outras orações eram elevadas aos céus. Esses encontros em torno ao templo amalgamavam a comunidade porque era aí que circulavam as notícias e se partilhavam êxitos e frustrações. Pode-se afirmar que Venda Nova, antes da chegada dos padres salesianos como residentes, foi uma verdadeira CEB (Comunidade Eclesial de Base), dado que os próprios habitantes do lugar se sentiam responsáveis pelo cultivo da fé entre os adultos, mas sobretudo entre as crianças e jovens.
Todas as residências possuíam um oratório, onde eram expostos o Sagrado Coração de Jesus e o Coração Imaculado de Maria, além dos santos da devoção. Diante desse altar, rústico na maioria das vezes,ouviam-se as famílias recitando o terço ao por do sol. Uma das imorredouras imagens que permanece viva na memória é a da nona indo ao moinho carregada com pesado fardo de milho, ostentando na mão livre o rosário que servia de intercessão pelos filhos.
A preocupação com o futuro das novas gerações passava forçosamente pelo estudo, que localmente não ia além do grau fundamental. Muitos adolescentes, rapazes e moças, foram encaminhados aos seminários de diferentes congregações e não poucos optaram pelo sacerdócio ou pela vida religiosa. Os que retornaram à terra natal não o fizeram sem uma considerável bagagem intelectual e moral, que contribuiu sobremaneira para a elevação do nível cultural de toda a comunidade e para a manutenção das tradições e dos valores religiosos.
A nomenclatura de “adolescentes, rapazes e moças”, aqui usada, nem sempre correspondia à realidade, dado que alguns indivíduos mal tinham saído da infância. Com freqüência os seminários ditos menores ou os ‘juvenatos’ eram povoados com pré-adolescentes entre onze, doze anos, sendo que alguns não passavam dos nove ou dez. Considere-se, no entanto: este era o costume da época, que não deixava de acarretar consequências futuras, sobretudo às relacionadas com o amadurecimento psíquico e afetivo, essenciais para a normal convivência humana em todos os âmbitos.
O tempo de ausência familiar, numa idade em que o colo da mãe e os roces entre coetâneos ainda são uma necessidade, essas ‘crianças’ passavam longos períodos sem esse aconchego. Ao retornar à casa paterna, já com compromissos religiosos firmados, depois de dez e até quinze anos de ausência, ocorriam por vezes, situações inusitadas. Como exemplo poderia ser nomeado aquele que voltou do seminário para alguns dias de férias familiares depois de 13 anos e se encontrou com manos e manos “desconhecidos”, ou conhecidos apenas por fotos; ou aquela religiosa que abraçava sobrinhos e sobrinhas que nunca havia visto; ou aquele que perdera familiares sem ao menos participar das exéquias.
Coisas de uma época, que assim julgava agir corretamente ou que não encontrava alternativas para o bem e o futuro de seus entes queridos. Felizmente superada!
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Saudações à família Falchetto e meu fraterno abraço, Ir. Claudino Falchetto, fms
